Quando uma família nota mudanças de comportamento ou de memória num familiar idoso, a pergunta surge quase sempre: será demência?
Este artigo explica o que é a demência, quais os sinais a que deve estar atento, os principais tipos que existem e como cuidar de uma pessoa com demência de forma adequada. A informação aqui apresentada não substitui uma avaliação médica.
O que é a demência
A demência é uma alteração no cérebro que dificulta progressivamente a memória, o pensamento e o comportamento, com impacto na vida diária da pessoa. Não é uma doença única, mas um termo que engloba várias doenças diferentes, todas com esse padrão de declínio progressivo.
Em Portugal, estima-se que existam atualmente mais de 238 mil pessoas a viver com demência, cerca de 2,29% da população total. Este número deverá subir para perto de 368 mil até 2050, com o envelhecimento da população (Alzheimer Europe, 2025).
A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência e representa entre 50% a 70% de todos os casos (Alzheimer Portugal, 2025). Existem outros tipos, com sinais e evolução diferentes, que descrevemos mais abaixo.
Estima-se ainda que cerca de 75% das pessoas com demência não estejam diagnosticadas, muitas vezes porque os primeiros sinais são confundidos com o envelhecimento normal (CNS Campus Neurológico, 2024).
Os sinais que merecem atenção
Faz parte do envelhecimento normal esquecer nomes ocasionalmente e lembrar-se depois, procurar por vezes as palavras certas, ou demorar mais tempo a aprender coisas novas. Estes sinais, isolados, não são motivo de preocupação.
Há sinais diferentes, que merecem mais atenção:
- Esquecer eventos importantes recentes. Por exemplo, não é não se lembrar onde pôs os óculos, é esquecer que o neto veio jantar ontem.
- Perder-se em locais conhecidos, como o próprio bairro.
- Ter dificuldade em tarefas que sempre fez sem problema, como cozinhar a receita favorita ou usar o telefone.
- Mudanças de personalidade que não fazem sentido.
A diferença principal está no impacto. O esquecimento normal não interfere com a vida do dia a dia. Quando começa a interferir, é altura de procurar uma avaliação médica.
Se notar alguns destes sinais, anote exemplos concretos, com datas se possível, e leve essa informação à consulta. É importante ser honesto com o médico sobre os sintomas observados.
Os principais tipos de demência
Alzheimer. É o tipo mais comum. Caracteriza-se por perda de memória progressiva, dificuldade em expressar-se, dificuldade na tomada de decisão e, ao longo do tempo, dificuldades motoras e alterações de personalidade. A perda progressiva de competências traduz-se numa dificuldade crescente em desempenhar as atividades do dia a dia.
Demência por corpos de Lewy. Costuma trazer flutuações no estado de consciência, em que a pessoa pode estar orientada numa parte do dia e confusa noutra. São também comuns alucinações visuais e alterações físicas, como tremores e dificuldade em manter o equilíbrio.
Demência frontotemporal. Manifesta-se sobretudo por perturbações na linguagem e mudanças de personalidade e de comportamento social, muitas vezes com dificuldade em ser empático e propensão para comportamentos compulsivos. A memória e a orientação costumam manter-se relativamente preservadas durante mais tempo.
Demência vascular. Evolui de forma lenta e gradual, afetando sobretudo a capacidade de planear e a memória. Um dos primeiros sinais pode ser a perceção de que a pessoa ficou mais lenta a raciocinar.
Mitos e realidades sobre a demência
Este tema está rodeado de ideias erradas. Conhecer os factos ajuda as famílias a agir com mais clareza.
Mito: “Demência é normal quando se envelhece.”
Realidade: a demência é sempre uma doença. Muitas pessoas chegam aos 90 ou 100 anos com a mente perfeitamente lúcida.
Mito: “Se tiver demência, não há nada a fazer.”
Realidade: existe medicação que pode atrasar a progressão da doença. Cuidados adequados, com estimulação cognitiva, fazem diferença na qualidade de vida.
Mito: “É hereditária, se os pais tiveram, eu vou ter.”
Realidade: a maioria das demências não passa de pais para filhos. Apenas alguns tipos raros são verdadeiramente hereditários.
Mito: “Pessoas com demência não percebem nada.”
Realidade: mantêm sentimentos e emoções durante muito tempo, e podem ter momentos de lucidez mesmo em fases avançadas.
Mito: “É melhor não dizer à pessoa que tem demência.”
Realidade: na maioria dos casos, as pessoas têm direito a saber e podem participar nas decisões sobre o seu próprio futuro.
Cuidar com respeito, não apenas com atenção
A investigação em demência, sobretudo o trabalho do psicólogo Tom Kitwood e mais tarde de Dawn Brooker, mudou a forma como se pensa o cuidado a pessoas com demência. A base é tratar a pessoa como um indivíduo, com uma história e preferências próprias, e não apenas em função dos sintomas.
Isto inclui conhecer a história de vida da pessoa, valorizar as suas competências e preferências, e olhar para o seu bem-estar em várias dimensões, não apenas para a doença (Brooker, 2007).
Kitwood (1997) identificou seis necessidades psicossociais centrais nas pessoas com demência: identidade, inclusão, ocupação, conforto, vínculo, e amor no centro de todas elas.
Um ponto útil para quem cuida no dia a dia: mesmo que a pessoa não se recorde no dia seguinte da tarefa que fez, o sentimento e a satisfação que sentiu enquanto a fazia têm valor por si próprios.
Comportamentos desafiadores têm sempre um significado
À medida que a comunicação verbal se torna mais difícil, é frequente que pessoas com demência usem o comportamento para comunicar. Agitação, resistência ou irritabilidade podem ser a forma que a pessoa encontrou para dizer que não está bem, especialmente quando há desconforto ou dor.
Antes de interpretar um comportamento como um problema, vale a pena perguntar o que pode estar por trás dele. Atitudes como não dar tempo suficiente, ignorar a pessoa ou tratá-la de forma infantilizada tendem a aumentar o mal-estar. Reconhecer, negociar, colaborar e validar o que a pessoa sente ajudam a reduzi-lo.
Procurar apoio faz parte de cuidar bem
Cuidar de alguém com demência é exigente, tanto física como emocionalmente. Perceber os sinais, conhecer os tipos de demência e separar mitos de factos são passos importantes. Nenhuma família precisa de fazer este percurso sozinha.
Procurar uma avaliação médica cedo, e procurar apoio qualificado quando os cuidados se tornam mais complexos, é uma forma de continuar a cuidar bem, não de desistir de o fazer.
Fontes: Alzheimer Europe, The Prevalence of Dementia in Europe 2025; Associação Alzheimer Portugal; CNS Campus Neurológico, 2024; Kitwood, T. (1997), Dementia Reconsidered; Brooker, D. (2007), Person-Centred Dementia Care.